quinta-feira, 17 de abril de 2014

Eu sou um compositor ou compulsivo?

Minhas músicas surgiram de forma gradual, muita delas no inicio mera copias dos meus ídolos, pedaços de acordes e tentativas de produzir algum som. Sendo um músico medíocre, nunca consegui tocar uma música inteira, sendo assim juntei minha arrogância e comecei fazer minhas músicas, se errasse ninguém se importaria mesmo... Mas mesmo assim, inicialmente só conseguia fazer o som, letras era algo difícil para mim, de certa forma tinha que se abrir bem mais do que apenas juntar duas notas e encharca em distorção. Minha adolescência sempre foi caótica e solitária, minha vida adulta não mudou muito, mas de vez em quando tenho meus momentos de luz. De qualquer forma música foi à válvula de escape que me manteve longe de uma navalha, além do meu orgulho. 
Conforme cresci notei que todos meus professores eram músicos frustrados, era muito depressivo (até para mim) e como Alan Moore já disse: “se eu não posso ganhar o jogo, não tenho por que competir”. Sendo assim desiste de professores (aprende muito pouco mesmo e sempre defende a tese que depois de se aprender afinar o instrumento e conhecer seus acordes o resto vem gradualmente) e de ser um músico.  Em vez disso comecei a desenvolver o que seria gravar minhas próprias musicas em mini-fitas cassetes (um presente da minha mãe) e fazer tablaturas num caderno (nada muito requintado). Então em plena idade de 18 anos, acumulava um total de 50 instrumentais, algumas boas que sobreviveram e outras que desapareceram, mas mesmo assim ainda faltava alguma coisa. Apenas tocar não era mais relevante, eu precisava me expor mais e principalmente expressar coisas que eu nem sabia que existia. Quando comecei a usar computador (eu relutei bastante em me atualizar, não sei bem porque) tomei coragem de usar programas e comprar um microfone vagabundo (Shire, imitação Paraguai do Shure). Eu tinha tanta vergonha das minhas músicas que botava a distorção no 1.000 e deixava meu vocal bem baixo, mas como eu estava na onda do rock alternativo o barulho de certa forma me dava segurança, ponto importante que nessa época eu joguei fora todas minhas composições  pré-18 anos fora , principalmente ás letras, lembravam uma época de paixonites adolescente que preferia esquecer. Como não conseguia fazer letras decentes me aprofundei na natureza de instrumentais e onomatopeias cantadas (existe isso?), algumas renderam canções tardias, mas grande maioria tinha aquela neblina de distorção e falta de direcionamento.
Num lance de brincadeira surgiu o “The Bear & The Military Men” entre a minha recém-admiração por canções folk. Inicialmente eu conseguia escrever letras, mas não eram completas e muita vezes apenas rascunhos incompletos. Em uma noite, mal dormida, me acordei ás 3 da manhã e digitei alguma coisa no meu celular, depois de algumas semanas eu acabei lendo a palavra e pondo no minha lista de prováveis nomes do projeto (o nome original não animava muito), das 10 o nome “ALulas” se destacou. Uma penca de pessoas me pergunta o que significa? Realmente não sei, acho que foi por isso que escolhemos esse entre os 10. O “AL” começou timidamente, com uma letra do Victor sobre uma piada interna dos nossos jogos de basquete e no cantor folk Cat Stevens. Tem um momento no show dele de 78 (eu acho) que ele fala: O que é esse grande sorvete no céu? Desse negocio eu adicionei o marshmallow e eventos apocalípticos numa viagem típica da nossa amizade de quase uma década. Assim nasceu o nosso “hit”, The Great marshmallow in the Sky, que no final nem teve nada a ver com a ideia original, mas de longe é uma que todo mundo gosta (não entendo bem porque).  Mas depois dessa, o interesse do Victor caiu e o AL ficou um tempo quieto, eu como esse doente que vive compondo fiquei no meu minúsculo quarto compondo esboços como “Happy Face”, “Dancing With The Grasshopper”, “To the Unknown” e assim por diante. Nos nossos jogos semanais eu mostrava ás demos e Victor voltou a se manifestar e lapidamos ás letras, que na real sempre foi a grande função dele no AL, ou seja, transforma minhas ideias e dar palavras certas ao que quero transmitir (o que nem sempre é fácil) e além do mais compomos algumas em parcerias. Querendo ou não o lance do humor lírico, não foi de proposito, mas nossa demência sempre nos puxava para esse lado, ironicamente ia mudar.

Assim feito tinha nove canções e mais algumas inacabadas, o primeiro disco ás gravações correram de boa, mas de certa forma meu parceiro de banda não tem o mesmo tesão que eu de “produzir” um pouco mais ás músicas, sabe o básico adicionar alguns elementos e dobrar vocais. No Love Nipples, ele tinha bastante paciência, mas aos poucos isso ia mudar e de certa forma fez o disco ficar só com nove faixas, por que se continuássemos gravando talvez nós teríamos matado um ao outro, provavelmente por isso ele até hoje odeie “Dancing With The Grasshopper” porque não via moral nenhuma em fazer todas aquelas bizarrices além de cantar. Falando em cantar. Eu sei muito bem que no inicio o Victor mais dublava que cantava, mas nunca me incomodou na real, sentia algo original que se pa nas minhas antigas composições faltava e pela primeira vez comecei a expor mais meu trabalho, foi o AL e o compositor/compositor Diego Medina que me inspiraram a deixar meus álbuns disponíveis na internet, na verdade o Medina me inspirou mais e o AL me deu a coragem de ver um projeto meu audível.
Mesmo com a encheção de saco de ambos, novas canções brotaram no período de natal/verão, agora eu estava muito influenciado por Beatles e total devoção ás letras de John Lennon, de certa forma compondo melhor, não tão dependente da muleta autoral do Victor e compondo mais como dupla mesmo, aquele lance de se juntar e ter uma ideia geral da letra em si. Dessa vez não tínhamos muito norte no que fazíamos, um dos meus erros foi querer fazer um hibrido do AL e meus projetos particulares, o que rendeu algumas canções legais, mas que de certa forma se perderam nas camadas de som que eu queria por, chegamos ao ponto de quase termos um terceiro elemento na banda, o que não deu certo. O cara tocava muito, mas não cantava e ás ideias dele eram muito longe da nossa orbita (no fundo acho que nasci para ser um instrumentista solitário). Então aos poucos coisas pessoais degastaram o disco que conseguiu ser menos que o primeiro com apenas seis faixas, que mixei depois de uns quatro meses por que estava com tanta raiva com o fim do álbum e da dupla que desenvolvi um projeto solo na linha do AL.
O nome do projeto foi inspirado pela namorada de um amigo, para ser mais preciso um comentário dele sobre ela. Enquanto ela dedilhava um violão e praticamente sussurrava uma letra de alguma cantora neo-folk que ela tinha me mostrado (ao qual não me recordo), ele chegou e pediu para ela cantar mais alto, conforme o pedido negado disse “Sinfonia de sussurros”. Em inglês fica mais legal, Whisper Symphony e esse nome grudou na minha cabeça. Em janeiro eu dissolvi o AL, muito porque o Victor queria se dedicar cada vez mais a sua namorada (logo eu também estaria na mesma situação) e como eu não tinha paciência de esperar muito, achei melhor terminar enquanto ainda a gente podia ficar de boa, das trinta canções apenas seis foram gravadas e ficariam num limbo por alguns meses.
O “Whisper” tinha um nome, mas não inspiração para render alguma coisa boa, mas conforme me apaixonei por alguma garota elas começaram surgir, de longe o primeiro disco é reflexo do que eu sentia com o relacionamento. A animação inicial, sexo, compartilhar ideias, assumir algo como seu, o medo de perder, ódio das manias e claro o inicio do fim (mesmo que o relacionamento não tenha acabado e continue se mantendo numa linha ténue de amor e ódio adicionado a total falta de compromisso).
Durante esse tempo editei o segundo do AL, Songs About Something Ep, desse “Summer Love” se destacou, em parte por causa de ser um dos poucos vídeos bons que fiz na vida e outra porque a música é tão louca e cheia de símbolos que é difícil não grudar na cabeça. A melhor citação que ouvi foi de um amigo foi que ela tem acordes demoníacos e outra que não é tão memorável, mas foi um comentário de uma pessoa alheia de que essa era a música “dela”, não me lembro de termos composto ela para alguém, mas mesmo assim, é legal...
Esse foi o puxão de eu e Victor trabalharmos novamente em algumas canções, com a lição aprendida no “Songs”, nosso lance era eu gravar todo instrumental em casa, fazer ás letras com o Victor e gravar os vocais depois.  O esboço original das letras foi meu e de longe é ás canções mais mal-humoradas que escrevemos. Muitas falando do meu relacionamento cada vez mais caótico e no fato de cada vez mais eu acreditar que vivia em algo que não deveria estar, mas ao mesmo tempo não quero sair (vish). Musicalmente é um bom disco, onde eu voltei a nossa forma original. Além do tema básico tem um pouco de humor negro em algumas faixas, mas no geral é um disco liricamente pesado, não que ache que alguém se importe com ás letras além de nós (ou talvez só eu), mas é bem depressivo ver como eu me sentia, ao mesmo tempo é o mais redondo desde o primeiro, o que me deu certo orgulho. Dai em diante eu notei que o AL é mais uma entidade que de vez em quando surge e cospe algumas canções e parei de forçar a barra e deixar rolar.
Eu poderia falar do Whisper e Devitto’s Dead ao qual gravei muitas coisas nesses quatro anos, mas vou me focar no que aprende e como formatei meu estilo de compor. Primeiro e mais importante não se preocupar se é bom ou ruim, não importa apenas grave. Cansei de ver que algo era bom meses/anos depois de ter gravado; Segundo, nunca sature demais, ou seja, quanto mais breve melhor, hoje condenso minhas ideias no menor formato possível; Terceiro sempre grave para si, não que opiniões não sejam importante, mas foda-se sabe. Eu não almejo sucesso, reconhecimento ou toda aquela babaquice, apenas quero fazer algo que sinta que seja puro e não deva nada a ninguém. Eu sei que é piegas, mas é assim que eu penso. Quarto, se você ama o que faz, invista em equipamentos, nada muito caro: Um microfone decente, uma mesa de som e obviamente instrumentos podem servir para traduzir aquele som de sua cabeça em algo real; Quinto isso é mais do lance pessoal, mas cara você vai morrer, mas graças a mãe internet, deixe seu material na rede, vai que daqui a 100 anos você seja igual aqueles músicos obscuros que são descobertos e tem algumas centenas de fãs, você vai estar morto, mas mesmo assim, a esperança de sua arte ser reconhecida mesmo que tardiamente, eu gosto dessa ideia...
Voltando ao AL, bem depois de três anos nos fizemos quatro canções que saiu num ep/ensaio chamado PapperCut, hã foi triste notar como estávamos enferrujados e ao mesmo tempo nesse eu quis me dedicar a mais musicar ás ideias do Victor. “Eu particularmente gostei de “Making Love With Death” e ”Befere It Hurts”, mas do resto vish... tão sem sal e sem inspiração. Há antes dessas, havia um ensaio de duas canções bem legais, ”Sea Song” (que provavelmente ainda vai ser gravada) e “Beggining” que por algum motivo estão por aí em demos e anotações de cadernos. Falando nisso o AL é o meu projeto que mais tem demos, esboços e letras alheias, mas pouco material gravado. Então provavelmente eu caio morto e não tenha posto tudo na rede.

Mas pensando no presente, onde estou me dedicando ao mix do novo do AL, teve alguns percalços, para variar várias músicas descartadas (que se juntam a mais de 30 canções não gravadas), letras depressivas com humor negro e a adição de dois instrumentos novos, não apenas voz e violão, alias não tem violão. O pouco que eu ouvi eu gostei, mas como meu gosto sempre foi meio duvidoso não confiaria muito.

terça-feira, 15 de abril de 2014

UkeAttack - III [2014]



"Parasite"
Let's feel something else
Maybe you can help yourself
They breed from trees
They're part of me

Come on and see
parts of me
My long disgusting throne
May you can live
Positive dreams
I can cheat you along

Lives in my dream
every single scene
Pulling the strings
Being part of me

"Ahead"
Look at me I'm on my own
Can't hear my words are gone
Easily I can't stay
Face me a little less insane

Find yourself lonely
Keep yourself everyday
Heal yourself is up to you now
Keep yourself anyway

I can't see so ahead
But I believe I can stand
Sometimes I fall through the ages
At the end I rise again

"The Main Stage Clown"
Every single notion
Balance over oceans
Waves of conversation
Script of my creation

Hide yourself on words now
Cheat yourself, Laugh with the crowd
Hear yourself, the main stage clown
Be Yourself in your words now

They live under your domain
They do what you say
They don't have skills
Livin' in your creation

"Soneca"
I don't have a life, go away!
Under my disguise, I'll fade
Skip your lies, I'm own my way
I don't fantasize, I live today

Buy myself some lovers hate
Keeping my own decay

Sometimes I shouldn't play
It's ok? or another phase
Your single mind keep me insane
In other life may I stay

Dreaming
Cause you're dreaming
Dreaming

"Sharp Knife"
Sing my open hate
Love's all mistake
Make me suffocate
Drown on my rage

Lets have some faith
Need more than I take
Tie me on your lies
I need a sharp knife

"We Got News"
We got news
about you
whatever it says
only you'll have
Something goo
or mayber a chose
whatever it says
only you'll have

"Hear Me"
Hear me cause I have to speak
See is lose everything

I see everything


All Songs & lyrics by andré

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

sábado, 8 de fevereiro de 2014

UkeAttack - II Ep [2014]


Mais uma que escrevi com meu novo Uke, dessa vez acho que me esforcei em aprender alguns acordes novos e fazer ritmos diferentes...


Godless

You play the Godless like no one
See them or leave them, you don't belong
You raise your god and that's no fun
See them or leave them, you don't belong


You test our Father and that's no fair
See them or leave them, you don't belong
You smash our Father and I don't care
See them or leave them, you don't belong

Golden Chains of Love

I got a feeling
that you'll leave me
like ten years ago
I hate to feel this
I don't wanna see it
By a future, we blow

I don't love you
I live above you
Golden chains of love
I need less you
I Just Please you
we can't change love

Piggy Lullaby

Sing me up a lullaby
if you believe pigs can fly
save me from the eternal flies
a place in between tender lies

Fill me up till I can't hide
May you can see selfish signs
Seen before, ambush sky
Badly and hopeless I can't die

Comum People

Comum people, come to see
Common everything that breath

I hope you all die!

Bring your lies, bring to me
Comum people, come to see me

Uncle Bob

Look out kids!
Uncle Bob was around
He has many toys to show
At least do you think so

Watch out kids!
Don't leave your moms now
Bob have no one to talk
There is a pity but you don't wanna

Play with Bob the pedophile
He has a third arm
Who talk too much
A little bit too much

I meet Bob once
And thinking well
I never been the same since


All songs & Lyrics by André

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Campos de papoula no Ártico

Ela chega atrasada na parada do ônibus, a fila que passa de cinquenta pessoas, cansadas da jornada diária de trabalho. Passa na roleta, paga a quantia absurda que rouba boa parte do seu salário todo mês e vê que como em toda sua vida não consegui parar de sorrir, talvez algum trauma de infância, quem sabe alguma maneira de lidar com o stress, difícil dizer. Com sorte se senta no banco na frente do cobrador encarando a face entediada dos passageiros, arranca uma maçã da bolsa e a mastiga com atenção. Seus olhos param num homem relativamente obeso que parece ter seus 24 anos mais ou menos, camisa social de mangas curtas cinza (notasse uma mancha de caneta vermelha, acima do bolso no lado esquerdo), barba de mais ou menos duas semanas, sob o rosto um nariz torto. Ele sorri e a olha fixamente para janela e ocasionalmente para ela. Termina de comer sua maçã meio que hipnotizada por ele, pensando: “Essa figura esconde alguma coisa, sempre desconfiei de pessoas que sorriem demais e a encaram com seus olhares cínicos. Provavelmente algum estuprador intelectual, daqueles que firmam suas bases em fontes como wickpedia e toda essa merda que vemos na internet. Odeio esse lixo de pessoa, ele parece tão metido, do tipo que olha ás pessoas de cima para baixo. Tímido demais para flertar diretamente comigo, pena para ele que tenho visão periférica”.

Aos poucos sente seus olhos descendo, esta com muito sono, cansada do trabalho, da vida e da humanidade (pequeno exagero filosófico). Mas ela teima em não se deixar adormecer, mas a cada solavanco se acorda como se estivesse sido extirpada de algum sonho, sua visão se fecha no sorriso do homem, como no desenho da Alice (no país das maravilhas), aquelas teclas amarelas dançam na sua visão a puxando para um labirinto que não pode escapar.

- Acorda “Alice”...

A voz a chama no escuro, estranha e de certa forma familiar, ao fundo ela ouve a conversa de várias vozes. Não entendendo uma única palavra, como se fosse outra língua, mas sabendo que é sobre ela. No máximo ela é só uma consciência nesse vácuo negro de cochichos, não tem poder nenhum, ou sequer a sensação de um corpo, apenas uma presença.

- Não que eu não adore olhar você desse jeito tão indefesa e linda, mas sabe... Eu só posso ajudar se você acordar, o caminho é longo e creio que dependendo de suas atitudes, vai ter um longo descanso depois.

Ela desperta como se tivesse levado um murro forte no rosto, visão embaçada, desorientada, ônibus vazio, completamente vazio e uma iluminação de hospital que chega a cegar. Ao seu lado o simpático semi-obeso sorri sem mostrar os dentes, tentando se mostrar amigável.

- É sempre divertido ser acordada por estranhos né? Não precisa responder... (ri de forma engasgada, sugando saliva, som similar a de um porco). Bem é nessa hora que te estupro?

É difícil dizer se foi uma piada, ou não. Se foi, não teve muita graça, eu acho que ele notou. Por que olhou para baixo como criança que disse o que não devia, até fica bonitinho assim...

- Ok, ok, ok... Há eu deveria ter deixado essa piada de lado há muito tempo, um dia ainda vou pagar pelo que digo. De certa forma já paguei, ou estou pagando ainda? Não sei...
Mas chega de falar de mim mulher, bem eu sou o que chamam de acompanhante (não do tipo sexual infelizmente) e sim aquele que vai te levar para o próximo “julgamento”, o pra valer. O “pré” que você passou nesse momento, sabe ás “vozes sem sentido” é apenas o começo.

Ela o encara, contorce todo corpo pensando o quão babaca ele é se achando engraçado num momento que provavelmente nem ele sabe o que significa, sem forças e indefesa perto desse fanfarrão. Mas algo a impele a pular em cima dele com ás mãos em sua garganta enquanto grita coisas sem sentido e tenta chutar suas partes baixas ao mesmo tempo (procedimento padrão feminino). Para um babaca gordo ele é bem rápido, girando o corpo ele a derruba no chão (estranhamente não sente nenhuma dor) e põem o pé contra suas costas a imobilizando.

- Olha isso é tão divertido para mim quanto para você! Acho que você claramente não tem o mesmo humor que eu nessa situação. Mas como ia dizendo, nesse exato momento a senhorita esta passando pelo estagio de desencarnação, vulgo deixar o corpo e suas neuroses para trás. Aqui nesse mundo eu sou tão perigoso para ti quanto você é para mim, então podemos nos sentar e conversar como adultos?

De cara contra o chão espelhado do ônibus, ela olha indiretamente para os seus olhos castanhos, pela primeira vez sentindo uma simpatia por ele. Jogando o cabelo para cima com a intenção de tira-lo do rosto, encarando o, acena levemente. Aos poucos ele tira o pé de suas costas e se afasta e se senta no banco da frente, esperando calmamente. Conforme ela se levanta, ele olha para o pulso sem relógio e finge estar impaciente (continua sem graça).

- Bem, agora que nos conhecemos melhor (da uma leve piscada e sorri maniacamente). Deixe-me explicar nossa jornada, esta vendo esse belo busão branco nos levando “através do nunca”? Sim, minha dama isso é sua ultima visão do mundo terrestre, “transporte público”. Não é das melhores, mas poderia ser pior! Sugiro que não olhe para a linda paisagem ao lado, se for muito apegada a coisas mundanas, sabe tipo “vida” e coisas do tipo...

Pelas janelas ela via passarem conquistas, derrotas, traumas, amigos, seus familiares, ídolos, planos, sonhos, lugares, etc. Tudo emoldurado num quadro dividido entre presente, passado e futuro.  Num ponto ela observava como seria sua vida se tivesse encontrado o amor da sua vida. O homem entorta o pescoço olhando com pouca simpatia.

- Sempre acho divertido isso, todos nós temos isso na nossa linha do tempo. Sabe a “alma gêmea”, ou talvez o que achamos que seja. Sabe minha teoria? Eu acho que é uma ilusão, ou o quão sádico seria o nosso “Deus” nos deixar ver isso? Logo após saber que nunca poderemos encontrar essa pessoa, eu acho...

Encarando seus all stars vermelho, ele desaba sobre os ombros de cabeça baixa, mas logo um sorriso macabro assombra seu rosto escondendo toda dor que parece sentir, voltando com o seu cinismo inicial. Ao lado passa toda sua vida através dos vidros, rápido como um sulco arranhado de um vinil, mas ao mesmo tempo compreensível e nostálgico. Isso a faz pensar no que há pouco tempo chamava de vida, tudo passou tão rápido, ser usurpada assim sem ao menos ter chance de se despedir. Não era justo!

De repente o visor do ônibus indica “parada solicitada”, com uma leve parada a porta se abre. Na porta uma menina de cabelos escuros, um vestido azul claro e all star preto nos pés, o cabelo solto, na altura dos ombros. Sorrindo e emanando uma felicidade genuína que a chamava (não verbalmente, mas sim na cabeça dela), cada vez mais forte e mais tentadora, levando a algo conhecido que havia perdido. Levantando-se, a cada passo em direção à menina que um dia foi e de certa forma ainda esta ali. Quando estava preste a alcançar a mão da menina, algo a jogou contra a parede com força, o impacto a atingiu como se tivesse quebrado todos os ossos, juntando forças para se levantar e correr. Sentiu um soco no rosto a derrubar de novo, levantando o rosto para ver o que a atingia um chute certeiro na boca à fez cair, a sensação de ter perdido todos o dentes a fez parar. Na sua frente uma figura all stars vermelhos, calça jeans preta e camisa social cinza e o rosto demoníaco.

AS LUZES SE APAGAM.

Cegada novamente pelas luzes fortes, o pouco que via dava para notar que o “busão’ estava em movimento de novo, porta fechada e ás imagens da sua vida passando pelas janelas de forma mais distorcida. A figura demoníaca sumira. Por algum momento se sentiu extremamente sozinha e como se tivesse perdido algo muito importante, algo que queria ter, mas no fundo sabia que sua posse era passageira, mas mesmo assim queria encapsular aquilo para sempre. Ouviu uma voz suave vindo do banco onde estava sentada, ele permanecia como se nada tivesse acontecido, falando amigavelmente com ela.

- Esse é sempre complicado, sabe...  A infância, a minha não foi tão divertida. Adicione pai ausente e irmão mais velho torturador. Mas sempre me pergunto se na minha vez, não fiquei tentado também. Quando se envelhece a infância é algo que sentimos falta. A ingenuidade e inocência de cada momento ser único, até ser destruída por tudo que nos rodeia. Nada fica puro por muito tempo, mas não me ache amargurado nem nada, só curto a ironia.

Ele olha de forma debochada, tentando esconder o que sente de novo, mas sabendo que é perda de tempo. Levanta e calmamente vai à direção do corpo que se encontra no chão encostado na parede e estende a mão. Ela baixa o rosto tentando visualizar ás hematomas que não existem, os dentes no chão e olha de volta. Não há remorso e nem culpa no rosto, como se fosse algo que deveria fazer. Ela se levanta sozinha e caminha calmamente para o banco onde estava, ele a observa constrangido, mas não parecendo se importar muito, a espera sentar e volta tentando assobiar uma canção que lembra uma melodia dos Beatles. Os dois ficam em silencio por alguns momentos, que na realidade parecem ser uma eternidade.
Vendo que ela não pretende falar, ele tenta articular alguma coisa para chamar a atenção “ela ficar olhando para o que foi a vida, não ajuda muito durante a passagem” (resmunga).

- Existe um compositor (ou pelo menos existia) que escrevia muitas músicas, mas muitas mesmo. Igual a um “serial killer” se me entende? Ele sempre quis ser músico, mas de certa forma nunca poderia ser, suas canções eram muito pessoais para serem divididas. Talvez fosse sua natureza muito critica que o limitava, ou o fato de que quando compunha uma canção nunca pensava muito no que ela significava no momento, era como se fosse um pedaço de carne exposto, cru e vivo demais para digerir. O que sempre me chamou a atenção nas obras dele era como ele juntava algo simples a frases que não tinham sentido algum aparentemente. Uma vez perguntei: Você não sabe explicar nenhuma das suas letras? Ele respondeu: “Não na hora, mas depois tudo faz talvez sim.” Nunca entende o que ele quis dizer, mas agora eu acho que sei. Tem coisas que só ganham sentido depois, sabe quando se olha para trás, como só se tivesse sentido no final de toda obra estar montada, igual a um quebra-cabeça. Muito dos versos que ele pôs no papel eram só rimas, coisas que soam legais junto, mas o inconsciente dele dizia muito mais, ele não tinha controle sobre isso. No fundo a vida é assim, uma obra inacabada e imperfeita.

O ônibus parou dessa vez sem fazer barulho nenhum, a porta se abriu e através dela ela via um vácuo que não poderia ser definido, onde se encontrava tudo o que deveria ser e não ser ao mesmo tempo. Um borrão que formava um universo inominável. Ele acompanhou os olhos dela se perdendo na coisa e apenas sussurrou.

- A primeira vez eu seguro, agora você esta por ti. Esta vendo aquela coisa sem forma? Diremos que ela uma armadilha continua, sem passado, presente e nem futuro que prende sua alma nesse stato quo. O fato de não ser nada e ao mesmo tempo ser tudo é interessante, mas ouvi falar que o fim da linha é bem melhor, talvez todas suas respostas estejam lá, ou talvez não. Mas só tem um jeito de saber.

A coisa tomava formas, mas nunca se definia, seduzia com tantas dimensões que era difícil dizer em qual se poderia embarcar. De certa forma se alimentava de quem a olhava, pegando todos seus desejos e condensando em um, a coisa a encarava sem dizer nada com coisas que não pareciam olhos e ao mesmo tempo sim. O “acompanhante” a olhava com um olhar divertido, ele falou da coisa, mas em nenhum momento olhou para ela diretamente (quase que como a temesse também), sorrindo fez sinal que faltava pouco. O ônibus fechou a porta, mas não entrou em movimento, estático, sem imagem nas janelas, escuridão absoluta. E do nada, eles estão caindo numa velocidade que a fazia subir até o teto, menos ele que a olhava com um olhar curioso, ela sentia que a queda estava cada vez mais próxima e não havia nada a fazer. Ele se levantou e a olhou de forma perversa como se estivesse enlouquecido com a queda e começou a rir cada vez mais alto, e mais alto a ponto de a risada ser a única coisa no ar.

AS LUZES SE APAGAM.

 - Eu sempre gostei de um pouco de drama, vai dizer que o meu lance agora não ficou bem parecido com Gene Wilder no filme A fantástica fabrica de chocolates? Eu não precisava fazer isso, mas achei que daria um toque mais atraente. Só não recitei um poema por que seria meio exagerado, ainda mais que durante toda minha vida, poesia não foi um dos meus fortes, mas chega de falar de mim. Gostou do visual?

O ônibus tinha um aspecto vitoriano, se é que era um ônibus, parecia mais um trem de época, provavelmente século XIII. Papel de parede verde escuro em contraste com ás janelas de madeira, no lugar de vários bancos havia luxuosas poltronas marrons de couro sob uma tapeçaria vermelha escura. Em cada canto do vagão havia uma luminária com luz amarela exceto o direito onde estava o lugar do cobrador havia um bar com um barman de calças sociais preta, camisa branca e colete vermelho com gravata borboleta feito de cartolina em tamanho real. O gordinho parecia se divertir com a cara dela.

- E dizem que “Deus” não tem senso de humor... Ok, isso é meio estranho vou ter que assumir, mas depois que se esta há algum tempo aqui tudo parece normal. Menos aquele maldito barman que nunca me servi um drink! Mesmo que eu não beba seria bom de vez em quando. Estamos quase no final, que tal mais uma estória? Já conheceu alguém que vinha e saia da sua vida? Um amigo ou qualquer coisa parecida. Aquela pessoa que poderia estar há anos afastada, mas toda vez que se encontravam era como se tivessem se falado noutro dia. Eu conheci uma garota assim, sabe como se fosse para ser “a”, mas nunca foi. Quase como algo que devia encaixar, mas por alguma razão não encaixa, te deixa com duas peças solta e você sabe que no final cada peça vai se perder e não há nada que possamos fazer, todos estamos fadados a percorrer um abismo solitário sem fim.

O trem parou como um certo esforço, como se estivesse realmente nos trilhos, a porta do vagão se abriu lentamente revelando várias pessoas caminhando de lá para cá numa tela escura, rosto pálidos e cabisbaixos parecendo extremamente preocupados, ninguém conversava ou parecia notar a presença um do outro (sozinho entre milhões). O homem sorriu e se levantou calmamente, se espreguiçando durante o caminho ele assobiava os acordes iniciais de “Imagine” de John Lennon, antes de sair ele virou.

- Bem esse é meu ponto, daqui você esta sozinha, mas nada tema guria. Diferente de mim é apenas por algum tempo. Mas vamos dizer que não aprendemos algo hoje? Eu não sei bem o que, por que toda vez que meu tênis toca esse chão canceroso é como se nada tivesse acontecido. Eu volto para meu quarto, pego meu violão, escrevo algumas músicas e as contemplo por um tempo, tento entende-las, mas não consigo. Eu diria “até mais”, mas você sabe...

Ela sorriu para ele pela primeira vez, provavelmente por pena, mas ao mesmo tempo intrigada pelo que eles haviam passado até ali. Mesmo que perda a companhia de um cara tão irritante, ia sentir falta dele. Até mais do que deveria, depois de tudo isso. Ela sentia que preferia estar com alguém que não conhecesse do que ir para um lugar que nem sabia o que era. Assim que ele pisou na tela escura, caminhou como se nem tivesse saído de dentro do vagão.


Ela olhou inquieta, não conseguia aguentar a solidão, mesmo que fosse por tão pouco tempo. Algo no corpo dela dizia para correr atrás dele, ela tentava resistir, mas até ali, ele havia sido seu único amigo, que a protegeu dos demônios e dela mesma. Quem iria protegê-la no final disso tudo? A porta começou a se fechar lentamente, e ela via a figura corpulenta cada vez mais longe, entrando no mar de espectros, passando por eles e chegando ao fundo da tela. Num segundo ela estava correndo em direção à porta, com toda velocidade que podia correr, pensando em alcança-lo e dizer o quanto queria lhe fazer companhia, ser sua amiga e nunca deixa-lo sozinho. Assim que pisou no vazio todos desapareceram, os fantasmas, um por um foram se apagando a sua frente até chegar ao seu acompanhante que sumiu como uma estrela cadente no céu negro e ao virar para trás o trem havia partido.





quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Meu "EU" descrito porcamante por mim mesmo

Existem vários tipos de “Andrés” dentro de mim, não exatamente uma pessoa dentro de mim, mas sim personalidades. Uma mais interessante que a outra por sinal e ás vezes não. Bem, eu queria ser uma pessoa mais direta e menos confusa, preto e branco sem esses tons de cinza que sugam minha sanidade, mas fazer o que!

Tem o intelectual que adora banca o sabichão sobre qualquer coisa, muitas vezes inventando fatos; O mal-humorado que qualquer coisinha besta incomoda, onde todas as pessoas parecem ser tão idiotas, ondo tudo dá errado e parece conspirar contra; O tímido que foge das atenções de todos, não por que se acha superior nem nada, mas sim por que acha que ninguém devia perder tempo pensando nele, sabe... Ele não é nada demais e tem pessoas mais interessantes no mundo; Há o esnobe que acha que é superior a todos, os que não entendem não vê sua grandeza nesse mundo, mesmo com pouco espaço de vez em quando ele aparece para assombrar a minha cabeça; O neutro que prefere não se envolver e ficar na sua, procura paz de espirito na conveniência e no conforto: “ás pessoas e o mundo são assim por que tentar muda-lo?” Esse é seu lema; O intolerante que não entende por que tanta injustiça nesse mundo, não entende por que teimam em errar se o certo é tão obvio, que não entende por que tanta hipocrisia de não querer se envolver e ficar preso no seu mundinho; O hipócrita, aquele que adora quebrar ás palavras o que os “outros” disseram, não vendo que isso vai cobrar o preço com passar do tempo; O depressivo que não vê esperança em nada; O paranoico que teme por tudo e por todos; O cínico onde o maior prazer é ser mau e desnecessário com suas piadas e comentários de mau-gosto; O criativo que aparece em músicas textos e desenhos maus feitos; O fresco que adora designe de interiores e programas de moda & comportamento; O histórico que fica os sábados entediantes grudado no history channel; O infantil que adora desenhos e coisas nostálgicas da infância; Há o nojento, que é bom não comentar... Deixe a sua imaginação fluir; O educado, que esfrega seu sorriso na sua frente, mas nem sempre é o que aparenta; O feliz que por alguma razão se sente bem, mas teme se sentir mal, por que tem a neura que nada fica bom por muito tempo; O profissional que é teimoso em seguir regras sem exceções; O romântico que não sabe se expressar e vive escondido por que tem medo de se mostrar e bancar o babaca; O desastrado sexual que não sabe o que faz, mas finge bem; O social que tenta ficar de boa com todo mundo, mas na real não se importa e sim com alguns poucos que conta nos dedos; O falso que finge não se importar com nada, por que sabe que isso afeta mais ás pessoas, mas quem sofre no final é ele; E finalmente (eu acho) temos o que sofre de remorso por todos eles, pelas decisões, ações ou não ações, ele tem bastante espaço em mim, mas estou tentando me livrar dele, certos hábitos são difíceis de perder.